{"id":10120,"date":"2016-05-05T17:28:11","date_gmt":"2016-05-05T20:28:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.vendedorautonomo.com.br\/site\/?p=10120"},"modified":"2016-05-05T17:28:11","modified_gmt":"2016-05-05T20:28:11","slug":"ensaio-sobre-a-lagrima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vendedorautonomo.com.br\/site\/ensaio-sobre-a-lagrima\/","title":{"rendered":"Ensaio sobre a l\u00e1grima"},"content":{"rendered":"<p><small>Por Tom Coelho* <\/small><br \/>\nCom a proximidade do Dia das M\u00e3es, uma reflex\u00e3o sobre a brevidade da vida.<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.vendedorautonomo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/homem-chorando-1100x531-300x163.jpg\" alt=\"homem-chorando-1100x531\" width=\"300\" height=\"163\" class=\"alignright size-medium wp-image-10121\" \/><\/p>\n<blockquote><p>\u201cChora, Tistu, chora. \u00c9 preciso.<br \/>\nAs pessoas grandes n\u00e3o querem chorar, e fazem mal,<br \/>\nporque as l\u00e1grimas gelam dentro delas, e o cora\u00e7\u00e3o fica duro.\u201d<br \/>\n(Maurice Druon, em \u201cO menino do dedo verde\u201d)<\/p><\/blockquote>\n<p>Sempre apreciei a express\u00e3o \u201colhos marejados\u201d. \u00c9, para mim, de uma beleza pl\u00e1stica incr\u00edvel. Os olhos, as \u201cjanelas da alma\u201d. E o mar, com seu ir e vir das ondas.<br \/>\nOlhos marejados s\u00e3o assim. L\u00e1grimas que pensam em deixar o conforto dos olhos, mas que se retraem como quem diz: \u201cAinda n\u00e3o \u00e9 hora\u201d ou, ent\u00e3o: \u201cAinda n\u00e3o posso me desnudar\u201d.<br \/>\nA l\u00e1grima revela tudo. Ins\u00f3lita por natureza, carrega consigo dor, tristeza, alegria, emo\u00e7\u00e3o. A l\u00e1grima marejada cont\u00e9m-se em si mesma. Ela \u00e9 suficiente para cobrir toda a superf\u00edcie ocular. Faz os olhos brilharem, refletindo a transpar\u00eancia da alma.<br \/>\nHospitais s\u00e3o locais onde se tratam pessoas doentes. Constru\u00e7\u00f5es de paredes s\u00f3lidas e \u00e1ridas, brancas e g\u00e9lidas. Uma arquitetura onde o calor naturalmente se dissipa e onde as vozes ecoam assustadoramente \u2013 assim como as rodas e rod\u00edzios das cadeiras e macas que perambulam pelos corredores.<br \/>\nAcho que um dia algum publicit\u00e1rio passou por um hospital e percebeu que ali faltava algo. Resolveu, ent\u00e3o, colorir as paredes das alas de pediatria, instalar uma capela no t\u00e9rreo e criar um banco de sangue. Tudo isso para humanizar aquele ambiente \u2013 porque o que lhe faltava era vida.<br \/>\nAo contr\u00e1rio do que se faz supor, hospitais, e aqui excluo as maternidades, s\u00e3o moradas n\u00e3o da sa\u00fade, mas da doen\u00e7a. A sa\u00fade reside no sorriso maroto de uma crian\u00e7a, nas \u00e1rvores que florescem na primavera, na conjun\u00e7\u00e3o er\u00f3tica dos amantes. Nos hospitais, habitados pela doen\u00e7a, a morte espreita, vagando livremente, rindo-se com sarcasmo do sofrimento de internos e familiares.<br \/>\nOs profissionais \u2013 m\u00e9dicos, enfermeiros e assistentes \u2013 aprendem a ser her\u00f3is sem cora\u00e7\u00e3o. Her\u00f3is porque lutam contra a engenhosidade ardilosa da doen\u00e7a que busca ref\u00fagio nos rec\u00f4nditos da complexidade do corpo humano, procurando dificultar o trabalho de sua descoberta. \u00c9 um jogo de ca\u00e7a, de esconde-esconde, no qual o bem luta para triunfar enquanto o mal, uma vez instalado, d\u00e1-se por vitorioso desde o in\u00edcio, nada tendo a perder.<br \/>\nEntretanto, por atuarem numa batalha t\u00e3o desigual, muitas vezes patrocinada pelo despreparo, pela desqualifica\u00e7\u00e3o ou pela desestrutura, estes her\u00f3is aprendem a dominar suas emo\u00e7\u00f5es. Afinal, s\u00e3o tantos dias, dias ap\u00f3s dias, horas e mais horas, enfrentando as adversidades, testemunhando a amargura velada ou silenciosa de seus pacientes, acompanhando o desespero e, por vezes, o destempero de familiares \u2013 que transitam com suas faces avermelhadas e seus \u00f3culos escuros, e n\u00e3o em decorr\u00eancia do esplendor do sol \u2013, que tudo aquilo se torna rotineiro. Cena do cotidiano.<br \/>\nQuando seu time de futebol vence uma partida, voc\u00ea fica feliz. At\u00e9 esfuziante. Cada gol \u00e9 comemorado como se fosse \u00fanico. Mas se a equipe se torna imbat\u00edvel, as conquistas perdem o sabor, porque se tornam previs\u00edveis. A felicidade vira alegria. A alegria vira desd\u00e9m. Assim ocorre com a maioria dos m\u00e9dicos. A sensibilidade se esvai, por h\u00e1bito e por dever de of\u00edcio. E eu os respeito por isso, porque seria incapaz de faz\u00ea-lo. Por esse motivo tomei como profiss\u00e3o a mente, e n\u00e3o o corpo das pessoas. Fiz de um l\u00e1pis, uma caneta ou um teclado meu pr\u00f3prio bisturi.<br \/>\nEm uma manh\u00e3 fria e cinzenta de novembro, de um distante, mas sempre pr\u00f3ximo ano de 2004, minha m\u00e3e nos deixou. Cinco anos depois, foi a vez de meu pai. No combate \u00e0 doen\u00e7a, em ambos os casos, n\u00e3o nos faltou empenho, n\u00e3o nos faltou solidariedade, n\u00e3o nos faltou f\u00e9. S\u00f3 nos falta a presen\u00e7a f\u00edsica deles.<br \/>\nOs olhos j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o mais marejados, porque as l\u00e1grimas decidiram que era hora de se despir e ganhar o mundo. Tomaram formatos e fei\u00e7\u00f5es diversas, algumas discretas como o orvalho da manh\u00e3, outras intermitentes como garoa paulistana.<br \/>\nPor coincid\u00eancia ou n\u00e3o, os c\u00e9us, em sintonia, harmonia e defer\u00eancia, tamb\u00e9m derramaram suas l\u00e1grimas, por meio da chuva, anunciando a purifica\u00e7\u00e3o, a renova\u00e7\u00e3o e a mensagem de que a vida segue.<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.vendedorautonomo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/tom_coelho.jpg\" alt=\"tom_coelho\" width=\"140\" height=\"76\" class=\"alignleft size-full wp-image-391\" \/><br \/>\n&nbsp;<small><em>* Tom Coelho \u00e9 educador, palestrante em gest\u00e3o de pessoas e neg\u00f3cios, escritor com artigos publicados em 17 pa\u00edses e autor de oito livros. Contato: tomcoelho@tomcoelho.com.br | www.tomcoelho.com.br<\/em><\/small><br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Tom Coelho* Com a proximidade do Dia das M\u00e3es, uma reflex\u00e3o sobre a brevidade da vida. \u201cChora, Tistu, chora. \u00c9 preciso. 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